Um ensaio poético e pessoal sobre amor
minha primeira memória é de um rosto decepcionado, enojado. naquele dia, alguém me jogou pela janela do décimo andar sem se importar em amortecer a queda.
me lembro perfeitamente da sensação de inadequação, de estar perdida em meio a pessoas de rostos conhecidos.
responsável. madura demais pra idade. nunca deu trabalho. perfeita. inteligente. boas notas.
esses foram os adjetivos mais falados para descrever uma pequena criatura.
essa criatura pegou todos esses adjetivos e os levou como se fossem seu maior feito. afinal, ser inteligente, perfeita e nunca dar trabalho, eram o que a fazia ser amada.
Amor e luto.
amor. palavra estranha.
amar. verbo muitas vezes colocado em ação, de forma errada.
naquele dia, iniciou-se um luto.
mas o tipo de luto que não ganha flores.
ele não acontece no hospital, não é noticiado no grupo da família.
esse luto é silencioso.
ninguém fala dele.
ninguém visita.
ninguém reza.
a psicologia o chama de luto simbólico.
eu prefiro chamar de queda livre.
A permissão de ser
existe uma ideia que aprendi sobre amar: o amor, quando é verdadeiro, não exige que a gente se esconda.
descobri isso depois de ouvir que o amor começa cedo, na infância, quando nos mostram que é seguro existir por inteiro.
tem um psicólogo, Bowlby, que diz que o amor começa assim: com a permissão de ser.
e que se essa permissão falta, a gente cresce tentando caber.
tentando agradar.
tentando não dar trabalho.
o problema é que ninguém avisa que, em algum momento da vida, você vai deixar de caber até na sua própria casa.
e, nesse dia, o amor vira teste. condição. barganha.
Silêncios e ausências
foi mais ou menos isso que aconteceu.
as palavras não vieram de forma direta, mas foram ditas nos gestos, nos silêncios, nas ausências.
não se pode trazer uma presença que desorganiza a crença.
não se pode amar alguém que desafia o que aprendemos como certo.
certo. errado.
dois lados de uma régua invisível que mede o que merece ou não amor.
mas o que é certo, mesmo?
em alguns lugares, certo é amar livre.
em outros, certo é viver preso dentro do que esperam de você.
já houve tempo em que amar como eu amo era crime.
hoje ainda é, em algumas casas.
em alguns corações.
A cura que não precisava existir
não houve briga.
não houve grito.
houve um “dê tempo ao tempo”.
houve uma novena.
e a fé foi usada como forma de correção.
“Deus vai te curar.”
mas eu não estava doente.
só estava inteira pela primeira vez.
Dissonância cognitiva
na psicologia, existe um conceito chamado dissonância cognitiva.
é quando você sente algo que entra em conflito com aquilo que acredita.
imagino que tenha sido isso.
o afeto de uma vida inteira brigando com uma doutrina que não sabe amar o que foge da norma.
e no meio dessa guerra, eu virei alvo.
A coragem de amar
hoje eu penso que talvez seja preciso muita coragem para amar de verdade.
porque amar de verdade é aceitar o outro mesmo quando ele desafia tudo que você aprendeu sobre o que é certo.
e isso… nem todo mundo está pronto pra fazer.
não é sobre perdão.
não é sobre vingança.
nem sobre “buscar aprovação”.
é só uma tentativa de escrever o que doeu,
sem envergonhar a menina que um dia acreditou que, sendo perfeita, seria amada para sempre.
O medo e o amor
há quem diga que o amor tudo suporta.
mas o que mais tenho visto é que o amor, às vezes, se esconde atrás do medo.
e quando o medo ganha, o amor se retrai. se cala. se afasta.
mas há um tipo de amor que não depende da aprovação do outro pra existir.
é o amor que nasce quando a gente decide não se abandonar.
quando entende que não precisa mais caber nos moldes antigos pra ser digno de afeto.
Escolhendo ser inteira
depois daquele dia, não fui mais a mesma.
não por causa da rejeição,
mas porque deixei de tentar me moldar pra ser aceita.
não sou o erro da história.
não sou o desvio da rota.
sou só alguém que escolheu ser inteira — mesmo que isso custe o pertencimento.
Um novo espaço
algumas pessoas vão embora quando a gente para de se esconder.
outras chegam.
e no meio do vazio,
às vezes nasce o espaço que o amor verdadeiro precisa pra florescer.
um amor sem medo.
sem condição.
sem correção.
só amor.
comente aqui ou deixe o seu gostei pra eu saber se eu trago mais esse formato pra vocês ou não.
Aproveite e leia também o artigo sobre criação de conteúdo para as redes sociais.
