Psicologia

Vergonha Crônica – a psicologia da timidez

Muitos de nós vivemos com vergonha de quem somos, e carregamos isso em silêncio.

Vergonha de nossos erros passados, de nossos corpos, nossas escolhas, nossa identidade, nossa personalidade e, às vezes, essa vergonha toma conta de tudo, se tornando uma companheira constante, e nos fazendo acreditar que não somos bons o suficiente.

Quando a vergonha toma conta

Nós a sentimos muito intensamente em situações em que acreditamos que chateamos, ofendemos, enojamos alguém, ou quando vamos contra alguma norma social. Isso significa que talvez mereçamos ser punidos, rejeitados, que não somos dignos de aceitação e perdão.

É uma maneira de nos fazer comportar, de garantir que somos boas pessoas, e também de escondermos os comportamentos que achamos que os outros vão julgar.

Vergonha crônica: mais do que um momento

Nós nos escondemos completamente quando pensamos que nossos erros ou algo sobre nós nos torna desagradáveis — esse é o problema da vergonha crônica — não sentimos essa emoção apenas em resposta a circunstâncias específicas, sentimos vergonha mesmo quando estamos sozinhos, mesmo quando não há público e nem um comportamento ofensivo que tenhamos cometido.

O que Brene Brown nos ensina sobre vergonha

Brene Brown é uma das minhas pesquisadoras favoritas, e em sua palestra TED, chamada “O Poder da Vulnerabilidade”, ela diz que a vergonha é essencialmente o medo de desconexão, que fica muito próxima do nosso medo da solidão e do julgamento.

Existe algo em mim que, se outras pessoas soubessem, acreditariam que eu não sou digno de pertencer e de ser amado? E se houvesse, é melhor esconder? Ou então, como eu poderia ser amado e aceito?

A armadilha da aceitação condicional

Existe este tipo de jogo em nosso cérebro…

Ou eu posso ser verdadeiro, aberto, ser eu mesmo e talvez nunca ser amado, ou posso ser reservado e esconder quem eu realmente sou e talvez eu possa ser amado.

Nós nunca pensamos: talvez as coisas das quais eu tenho vergonha, os outros veriam apenas como parte de quem sou, isso seria parte de alguém que eles amam e nutrem.

Não é assim que a vergonha crônica funciona, é uma crença muito limitada que, se você não é digno de alguma forma, é melhor esconder essa parte de si mesmo.

O ciclo de isolamento e sofrimento

Isso resulta em uma série de comportamentos e compulsões realmente muito infelizes, como a necessidade de se isolar.

Se você já se percebeu se isolando depois de um grande evento social ou se escondendo depois de um dia exaustivo na frente das pessoas, e não acha que é uma pessoa introvertida, talvez isso venha da vergonha excessiva.

Também há um constrangimento ou ansiedade intensos em situações sociais, há uma autoaversão, uma autossabotagem, o sentimento de rejeição, tudo isso nos impede de tentar qualquer coisa que possa nos fazer sentir vistos, porque é isso que a vergonha faz. Ela é um minimizador.

Como a vergonha afeta nosso corpo e mente

Pense na última vez que você se sentiu envergonhada, você provavelmente estava curvando os ombros, evitando contato visual, abaixando a cabeça, quase se enrolando em si mesmo.

Fisicamente, socialmente, mentalmente, emocionalmente, o objetivo da vergonha é nos encolher.

Autoaceitação: a cura real

A única forma de superar a vergonha, é a autoaceitação: aceitar quem você é, seu corpo, sua identidade, tudo o que fez você chegar onde está e ser quem é, mesmo que tenha arrependimentos e pontos a melhorar. A autoaceitação é o que nos transforma em pessoas autoconfiantes, apaixonadas pela vida e corajosas, para enfrentar qualquer situação.

A vergonha não nos melhora

A vergonha não nos faz sermos pessoas melhores. Em nenhum momento a vergonha (excessiva) vai fazer de você uma pessoa melhor. Na verdade, ela é destrutiva, porque se baseia na premissa de que todo o nosso senso de identidade é um erro. Estamos sempre errados, mesmo quando não temos evidências disso. Você sente uma dor profunda só por existir.

A vergonha permanece, não sai. Ela é implantada cada vez mais profundamente dentro de nós.

A origem da vergonha

É importante lembrar que não importa há quanto tempo você e a vergonha compartilham o mesmo lar, nenhum de nós nasceu com vergonha de quem somos.

Em algum momento, e isso é uma coisa muito triste de se pensar, alguém teve que te ensinar que havia algo sobre você, que não deveria existir e que era motivo de vergonha.

A vergonha e a comunidade LGBTQIAPN+

Escrevo isso agora, pensando na comunidade LGBTQIAPN+: alguém em algum momento disse algo humilhante ou você vê coisas nas mídias que apenas vilanizam as pessoas que estão, literalmente, apenas vivendo suas vidas.

Isso provavelmente levou muitas pessoas a internalizar que, portanto, são vergonhosas, e isso não é verdade.

Vergonha infantil e identidade ferida

Ou a vergonha de cometer um erro quando criança e ser criticado por muito mais do que a ação em si, com expressões como: “você é desajeitada”; “você é preguiçosa”; “você é uma pessoa difícil”; “você não vale nada”; “você é inútil”…

Você consegue ver que a vergonha não é sobre o que você fez, ela está associada a quem você é. Ela se implanta em nossas mentes até o ponto em que se torna autoimposta — acabamos usando contra nós mesmos sem nunca mais precisar que ninguém nos diga novamente.

Vergonha como consequência do trauma

É como um câncer que cresce a partir da lesão do trauma, especialmente uma traição interpessoal — que é basicamente o trauma que encontramos das transgressões e ações dos outros, especialmente de pessoas em quem confiamos.

Ele se aloja profundamente em nossos corpos e em nossas mentes, e isso afeta e infecta todos os outros aspectos da nossa vida, relacionamentos, trabalho, estudos e o que você reconhece que merece da vida.

A raiz da culpa

Nada permanece intocado. Se você foi traumatizado ou humilhado quando criança ou adolescente, seja por um dos pais, um irmão, amigo, um valentão da escola, um professor…

Alguém que transgrida seu senso de autoestima ao machucá-lo, ao fazer você se sentir inútil, pequeno e sem valor.

E por conta de nossas limitadas habilidades de pensamento crítico ou de nossa limitada experiência de vida como crianças, a única maneira de dar sentido ao que estamos vivenciando é internalizando o que aconteceu, o que nos faz basicamente presumir que algo deve estar errado com a gente.

A estratégia de sobrevivência

Colocamos a culpa em nós, porque temos que presumir que somos a causa. Afinal, eles devem estar certos, como poderia achar que as pessoas em quem confio e deposito todo meu amor e carinho de criança estão mentindo ou sendo más comigo?

Isso se chama estratégia de sobrevivência. Não podemos pensar que as pessoas em quem confiamos para nossa segurança e proteção estariam erradas sobre coisas como essa, porque então elas poderiam estar erradas sobre outras coisas, e então quem poderia nos ajudar?

Quanto mais experiências temos como essa, mais opressiva e arraigada a vergonha se torna.

Como começar a sair do ciclo

Mas o que eu faço sobre isso? Como posso ser mais confiante, vulnerável e autêntico, quando meu próprio cérebro me diz para ser pequeno e invisível?

A vergonha é como um mau hábito. Não vai mudar a menos que você mude. Você sempre vai estar lutando consigo mesmo até que se aceite.

Até que seja quase como quando você se deita no mar e simplesmente deixa que ele te leve… até você perceber que tem lutado contra algo por tanto tempo, que se você apenas aceitasse e enxergasse você mesmo, talvez essa dor começaria a desaparecer.

Você merece amor e perdão

Você é suficiente, você é digna, você é alguém que merece o amor, que é amável, você é alguém que merece ser perdoado, não pelo outro, mas por você mesmo, independentemente do que te fez, algum dia, acreditar que isso não é verdade!

Como reagir à vergonha crônica

Existem alguns passos que podemos tomar para realmente melhorar essa vergonha crônica e o autojulgamento:

Primeiro, não dê forças à sua vergonha e ao autojulgamento. Aprenda a rebater a sua mente de forma positiva e acolhedora, cada vez que ela disser algo negativo sobre você.

A vergonha e o julgamento dependem de você aceitar cada coisa que eles dizem, sem questionar.

Então, ao invés de dizer, “eu não sou digna de amor”, você dirá “eu sinto que não sou amável porque tive um encontro ruim, ou porque tal pessoa me tratou mal”.

Isso te distancia do instinto imediato de autojulgamento. A partir disso, você consegue identificar que não é algo intrínseco a você — é um sentimento, não um fato — e é sobre como outra pessoa escolheu te tratar.

Isso pode ser um sinal de caráter falho dela, não do seu.

A origem da dor precisa de compaixão

Em seguida, acho que realmente vale a pena explorar de onde vem a vergonha e o autojulgamento excessivo, e tentar encontrar um ponto de origem.

Como disse antes, ninguém nasce tendo vergonha de si mesmo. É um comportamento aprendido.

E quando você estiver refletindo sobre essas origens da sua vergonha, traga conscientemente empatia, gentileza, acolhimento e compaixão de volta para essas memórias.

Você pode ser seu próprio lar

E assim, você pode seguir em frente, retirando a parte de você que ainda sente vergonha e até raiva de si mesmo e, em vez disso, aparecendo como um protetor, como uma pessoa forte e capaz de se acolher.

Também devemos praticar o amor incondicional que sempre desejamos do outro, mostrando a nós mesmos.

Reflexão final: o custo da autossabotagem

Pense em todas as pessoas que você conhece e que amam você. Pessoas que querem estar ao seu lado, que têm liberdade para ser amigas de qualquer pessoa — mas elas escolhem amar você.

Isso é apenas mais uma prova de quão brilhante e especial você é.

Qual é o custo de permanecer se julgando versus o benefício de se aceitar e criar autoconfiança?

Acredito que em seus últimos momentos nessa terra, você não quer pensar que se deixou levar pelo medo do fracasso, julgamento, constrangimento e solidão.

Mas sim, quer se lembrar de como se deixou viver de forma leve e livre para ser quem é. De ter ouvido as pessoas que se importavam com você e ter ignorado todo o resto. Por ter se deixado ser autêntica e vulnerável. Por se expor e correr riscos pela própria felicidade.

Aproveite e leia também nosso artigo sobre como tomar decisões difíceis.

Assista ao vídeo da Brene Brown, clicando aqui.

Milena Tacielly

Uma copywriter que encontrou na escrita um jeito de dar voz ao que importa. Uso das palavras para aproximar ideias de pessoas e espero que elas façam sentido pra você.

2 comentários sobre “Vergonha Crônica – a psicologia da timidez

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