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3 filmes dirigidos por mulheres

Durante muito tempo, o cinema foi um espaço dominado por olhares masculinos. Mas quando mulheres assumem a direção, o resultado é outro: surgem histórias mais humanas, afetivas, questionadoras e diversas. Isso é ainda mais forte quando falamos de mulheres negras, lésbicas, latinas, indígenas e trans que enfrentam múltiplas barreiras para ocupar esse espaço. Neste artigo, vamos destacar 3 filmes dirigidos por mulheres que marcaram a história do cinema independente e da representatividade LGBTQIAPN+.

The Watermelon Woman – Cheryl Dunye

Lançado em 1996, The Watermelon Woman é considerado o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra lésbica nos Estados Unidos. Escrito, dirigido e protagonizado por Cheryl Dunye, o filme é uma obra sem precedentes — ousada, política e profundamente autoral.

A narrativa acompanha Cheryl, uma jovem cineasta negra que trabalha em uma locadora de vídeos e se interessa por uma atriz chamada “Watermelon Woman”, creditada em filmes antigos como figurante sem nome. Em sua busca por essa mulher invisibilizada pela história, Cheryl mergulha em questões como identidade, sexualidade, racismo e a falta de registros sobre mulheres negras lésbicas na história do cinema.

The Watermelon Woman mistura ficção e documentário, ironia e crítica social, ao mesmo tempo em que constrói um romance sutil e sensível entre Cheryl e Diana, uma cliente branca da locadora. O filme questiona: quem tem o direito de contar histórias? Quem está ausente nos arquivos? E por que? Um clássico do cinema queer e feminista, a obra de Dunye é um lembrete poderoso de que quando mulheres dirigem, novas narrativas se tornam possíveis.

Retrato de uma Jovem em Chamas – Céline Sciamma

Portrait de la jeune fille en feu (2019), da francesa Céline Sciamma, é uma verdadeira pintura em forma de filme. A história se passa no século XVIII e acompanha a artista Marianne, contratada para pintar o retrato de casamento de Héloïse, uma jovem aristocrata que resiste à ideia de se casar. Aos poucos, as duas mulheres desenvolvem uma conexão intensa e silenciosa, que se transforma em amor.

O que faz esse filme tão especial não é só a beleza estética ou a delicadeza dos planos — mas a forma como Sciamma conduz a narrativa com olhar feminino e lésbico, subvertendo a tradicional “musa” passiva do olhar masculino. Aqui, não há voyeurismo, nem erotização gratuita. Há cumplicidade, desejo contido, silêncio compartilhado e gestos carregados de significado.

Além disso, o filme fala sobre o ato de olhar: quem olha? Quem é olhada? Quem pinta? Quem observa? É uma obra que desafia os códigos tradicionais da arte e do cinema, e que se tornou um símbolo da força do cinema feito por mulheres.

Aftersun – Charlotte Wells

Lançado em 2022, Aftersun é o elogiado longa de estreia da diretora escocesa Charlotte Wells. O filme segue Sophie, uma mulher adulta que rememora uma viagem de férias que fez com seu pai durante a infância, tentando compreender as nuances da relação entre os dois e os sinais de sofrimento que ela só consegue interpretar agora, anos depois.

O mais impressionante em Aftersun é sua capacidade de dizer tanto com tão pouco. A câmera é suave, os diálogos são mínimos, e ainda assim há uma avalanche de sentimentos em cada cena. Charlotte Wells cria uma obra delicada sobre memória, paternidade, saúde mental e o tempo que transforma nossas percepções.

Embora não seja um filme explicitamente LGBTQIAPN+, Aftersun é frequentemente citado em discussões queer pela forma como trata da sensibilidade masculina e da construção afetiva entre pais e filhos, quebrando expectativas de gênero e abrindo espaço para interpretações subjetivas e tocantes. Wells mostra que cinema dirigido por mulheres pode ser silenciosamente revolucionário.

Por que destacar filmes dirigidos por mulheres?

Falar sobre filmes dirigidos por mulheres é reconhecer que representatividade também está atrás das câmeras. Quando as mulheres criam, elas trazem perspectivas diferentes sobre o mundo, desafiam narrativas lineares e abrem espaço para corpos, afetos e subjetividades que o cinema tradicional muitas vezes ignora.

Mulheres diretoras enfrentam uma série de obstáculos para produzir suas obras: orçamentos menores, menos oportunidades, críticas mais duras e um mercado historicamente masculinizado. Ainda assim, continuam criando filmes potentes, emocionantes e profundamente necessários.

Ao assistir, apoiar e divulgar filmes dirigidos por mulheres, especialmente mulheres LGBTQIAPN+, negras e marginalizadas, estamos ajudando a mudar o que é considerado “história oficial” do cinema. Estamos, na prática, reposicionando o foco do olhar — e isso transforma tudo.

Como apoiar essas narrativas na prática?

Uma forma direta de apoiar o cinema feito por mulheres é assistir, recomendar, comprar ingressos e compartilhar esses filmes dirigidos por mulheres. A lógica do mercado ainda dita que quem tem audiência, permanece — por isso, fazer com que esses filmes cheguem ao público é um ato de resistência e afeto.

Também é possível buscar catálogos independentes, plataformas de streaming focadas em diversidade, mostras feministas e festivais de cinema queer. O protagonismo feminino no cinema não pode ser exceção, e sim regra. E isso começa com escolhas simples: o que você decide assistir hoje?

Por isso, os filmes dirigidos por mulheres indicados neste artigo são mais do que boas histórias — são janelas abertas por mulheres que ousaram contar o mundo com suas próprias lentes. E cada vez que a gente escolhe ver o mundo por esses olhos, ele fica mais amplo, mais justo e mais bonito.

Conclusão

Os filmes dirigidos por mulheres que apresentamos aqui são marcantes não apenas pela beleza estética ou originalidade narrativa, mas principalmente pela coragem de contar histórias que resistem à invisibilidade. São filmes que olham para o amor, para a memória, para o desejo e para a identidade com profundidade e poesia.

The Watermelon Woman, Retrato de uma Jovem em Chamas e Aftersun mostram que quando as mulheres dirigem, não apenas contam histórias — elas reescrevem o que é possível sentir e ver no cinema. Para o público do Ovelha Colorida, esses filmes dirigidos por mulheres representam um convite: o de olhar para si com mais delicadeza, mais verdade e mais liberdade.

Na próxima vez que você quiser assistir a algo que realmente te toque, escolha um filme dirigido por mulher. Pode ter certeza: a experiência vai muito além da tela.

Aproveite e leia também nosso artigo sobre séries LGBT+ para assistir na Netflix.

Milena Tacielly

Uma copywriter que encontrou na escrita um jeito de dar voz ao que importa. Uso das palavras para aproximar ideias de pessoas e espero que elas façam sentido pra você.

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